Origens do Blues e do Jazz: Linguagens Entrelaçadas

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Por Patrick Murphy

 

Sempre tive o interesse em entender a origem dos acontecimentos, seja de demonstrações do comportamento humano e de suas procedências psíquicas até os movimentos artísticos que mais me comovem. Dentre as expressões musicais, de muito interesse durante minha vida adulta foram o Blues e mais tarde o Jazz, estilos musicais norte-americanos que funcionam como veículos de demonstração do mais íntimo que a alma humana pode expressar. Como muitos, contudo, sempre tive a dificuldade de separar essas duas linguagens e entender cada uma delas de forma independente, apesar de entender que a relação entre elas foi e continua sendo de uma ligação intensa.

 

Para entender a origem do Blues, precisamos necessariamente voltar ao início do século XVIII, durante o Grande Despertar religioso norte-americano. Esse momento de maior união religiosa entre as raças é de fundamental importância histórica por finalmente oferecer à população negra um espaço de celebração religiosa em igrejas Católicas, mesmo segregadas. Nos cultos, os escravos negros tinham um espaço de dançar e cantar de um jeito que remetesse às formas de celebração africanas extirpadas deles no novo mundo. Essa prática deu origem ao Spiritual, estilo musical emotivo e introspectivo, que iria influenciar o Blues durante seu desenvolvimento.

 

 

Jesus Going to Make Up my Dying Bed – Horace Sprott

 

Spiritual monofônico provavelmente composto na primeira metade do século XIX e gravado em 1954. Essa manifestação musical tem a característica principal de humanizar e intelectualizar o escravo negro, inferiorizado por causa de sua raça. A letra demonstra o desejo do negro de “atravessar” para o outro lado, alusão tanto ao povo judeu atravessando o Rio Jordão nas histórias bíblicas como à vontade de muitos negros de fugirem para o norte do país, região, naquela época, livre, urbanizada e mais tolerante.

 

Outra manifestação musical negra influente foram as Canções de Trabalho, músicas cantadas por negros durante o trabalho escravo, especialmente nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos. As Canções de Trabalho, sem nenhuma influência europeia, aparentemente tornavam o trabalho mandatório mais tolerável e produtivo. Em razão do ritmo da música ser o mesmo ritmo do trabalho sendo realizado (o ritmo de um martelo batendo recorrentemente em uma pedra, por exemplo), a Canção de Trabalho é organizada e repetitiva. Crucial nessa música é o seu elemento responsorial, comum tanto no Blues quanto no Jazz, onde um solista canta um trecho e os outros integrantes respondem ao que está sendo cantado. As Canções de Trabalho tinham como temas a união entre os membros e a superação de situações existenciais degradantes.

 

 

Canção de Trabalho cantada por prisioneiros negros obrigados a abrirem caminho nos pântanos no sul dos Estados Unidos. Tem como temática o desejo de liberdade e as condições degradantes de trabalho. O elemento responsorial é presente em toda a música, com um líder musical cantando um trecho e o mesmo trecho sendo repetido pelo restante do grupo. Gravação de 1934 feita pelos etnomusicólogos John e Alan Lomax.

 

Outra influência fundamental para o desenvolvimento do Blues foram os Clamores de Roda, estilo musical que, como as Canções de Trabalho, têm como características o canto responsorial e a participação em conjunto dos membros. Os Clamores de Roda, contudo, não tinham controle rítmico rígido e não eram cantados durante o trabalho manual, sendo a expressão catártica dos participantes elemento central, que entravam em transe enquanto cantavam e dançavam em roda. Essa característica dos Clamores de Roda é também central na tradição do Blues e do Jazz, que abre espaço para manifestações singulares e emocionalmente carregadas, especialmente durante a improvisação musical.

 

 

Clamor de Roda também gravado por John e Alan Lomax em 1934. O elemento responsorial é diferente neste caso, tendo grunhidos e gemidos como resposta ao canto inicial. Os participantes comumente entravam em transe durante um Clamor de Roda. A letra da música tem como temas a fuga e a importância da intervenção divina na vida escrava.

A partir dessas influências musicais e com a popularização da música folclórica negra espalhada principalmente pelos Menestréis¹ durante o final do século XIX, o Blues pôde finalmente emergir como linguagem musical autônoma. Este estilo musical, contudo, não foi uma simples colagem dos estilos musicais anteriores, mas uma verdadeira síntese entre a cultura africana remanescente na população negra norte-americana e a cultura musical adquirida nos Estados Unidos pelos próprios escravos.

 

Jim Crow

 

Personagem Jim Crow, criado pelo menestrel Thomas D. Rice na década de 1830. A figura personifica um estereótipo do negro norte-americano criado pela sociedade dominante da época que via o negro como bobo, mal-educado e alegre. O personagem Jim Crow eventualmente deu o nome às leis segregacionistas relevantes principalmente no sul dos Estados Unidos.

 

Além de possibilitar a manifestação catártica dos seus intérpretes, do canto responsorial e da humanização do negro a partir da música, o Blues tem características próprias que a definem como estilo musical independente. De fundamental importância são os intervalos de terça menor e quinta diminuta encontrados na escala de Blues, que são executados melodicamente sob uma estrutura harmônica com tétrades maiores que se utilizam da sétima menor.

 

A escala de Blues, que provavelmente se desenvolveu da justaposição de uma escala pentatônica do leste da África com a escala diatônica ocidental, é a ferramenta musical que dá ao Blues a sua melodia cortante e visceral. Outra característica importante é a predominância da forma de doze compassos, repetida incessantemente até o final da execução da maioria das canções de Blues. A forma auxilia na apresentação responsorial da letra, que muitas vezes apresenta uma ideia melódica nos primeiros quatro compassos, repete a mesma frase nos quatro compassos seguintes, e responde com uma ideia complementar nos quatro últimos compassos, repetindo essa fórmula com a forma se reiniciando. As letras cantadas nas canções de Blues geralmente tratam de temas universais, como o amor não correspondido ou a dificuldade em lidar com o próprio destino em um mundo incerto.

 

 

“Death Letter”, do bluesman Son House, com o canto responsorial típico do blues, a forma de 12 compassos que se repete incessantemente e a melodia cortante da escala de blues. Gravado em 1965, é a história de um homem que recebe uma carta que conta da morte da mulher que ele amava.

 

O jazz se desenvolve a partir deste contexto cultural encontrado nos Estados Unidos no final do século XIX. Este estilo musical, contudo, tem outras influências importantes que a distinguem do Blues. Por ser uma manifestação musical urbana desenvolvida na cidade sulista de Nova Orleans, local de grande movimentação de grupos étnicos e culturais diferentes, principalmente durante o século XIX por ser uma cidade portuária de importância econômica fundamental para o país, o Jazz recebe influências diretas de culturas diversas, em especial vindos da região das antigas Índias Ocidentais e do Haiti. Além disso, a cidade mantém viva a sua tradição de bandas militares, que atuam na cidade na maioria das suas celebrações, desde funerais e casamentos até churrascos informais.

 

A instrumentação do Jazz terá influência direta destes grupos, enquanto que o Blues continuará fiel aos seus instrumentos originais (violão de aço, voz e gaita diatônica). Outra tradição musical importante que é eventualmente incorporada na linguagem jazzística é o Ragtime, estilo musical desenvolvido pelos Creoles Negros², que tem um ritmo alucinante, pelo menos para a época, além das influências claras da música européia erudita.

 

 

Ragtime “Maple Leaf Rag”, composição de 1899 do Creole Negro Scott Joplin. O ritmo sincopado do Ragtime era considerado tão maluco que os médicos da época receavam que pudesse causar ataques cardíacos nos ouvintes mais sensíveis.

 

Apesar dessas claras diferenças, a diferenciação definitiva entre as duas linguagens é estabelecida quando se consolida, na década de 1920, o estilo particular de solo sob cada um dos dois estilos musicais. O Jazz, que nessa época tem em Louis Armstrong seu representante mais influente, tende à ornamentação melódica e ao virtuosismo, enquanto que o Blues, que se incorpora na cantora Bessie Smith, continua tendo na expressão emotiva e na escala de blues seus mais poderosos pilares definidores. Outra diferença fundamental está no desenvolvimento do material harmônico, com o Jazz explorando, além dos 12 compassos do próprio Blues, outras formas, como canções populares norte-americanas da época. O Blues, contudo, pouco explora possibilidades harmônicas diferentes.

 

 

A cantora de blues Bessie Smith cantando sua composição original “Backwater Blues”, de 1927. A música é sobre uma inundação na cidade de Nashville, Tennessee, que destruiu a cidade no Natal de 1926.

 

O Blues, que ao longo dos anos pouco se transformou se comparado ao Jazz, se manteve fiel à sua visão artística original de expressividade intensa, enquanto que o Jazz desenvolveu um temperamento mais volátil, abraçando as mudanças que se apresentaram musical e socialmente ao longo do seu percurso secular na história dos Estados Unidos. Essas duas linguagens musicais, contudo, nunca romperam uma com a outra completamente, apesar de, durante o século XX, os dois estilos terem tido histórias particulares e diferentes uma da outra. Para terminar, podemos ouvir o magnífico Louis Armstrong improvisando sobre uma estrutura de Blues no famoso “West End Blues”, composição que talvez esteja justamente na fronteira definidora entre essas duas linguagens musicais.

 

 

Louis Armstrong improvisando com o trompete e depois com a voz na música “West End Blues”, gravada em 1928 com seu grupo os “Hot Five”. Sua introdução instrumental é até hoje considerada um dos marcos da improvisação jazzística.

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¹ Nos Estados Unidos, o Menestrelismo começou nos anos precedentes à Guerra Civil, e consistia de cantores e atores brancos que se pintavam de preto e ridicularizavam o comportamento negro de forma vulgar e estereotipada. Durante essas apresentações públicas, os menestréis, além de outras atrações, dançavam e cantavam música inspirada na música folclórica negra. Após a Guerra Civil e com a emancipação negra, alguns negros, buscando ganhar a vida longe dos latifúndios sulistas, se pintavam de preto e continuaram a tradição Menestrel até sua extinção total na década de 1960.

 

² Os Creoles Negros, na cidade de Nova Orleans, eram mestiços que tinham sido libertados da escravidão antes da Guerra Civil e estavam em uma classe social entre os negros vitimados pela miséria e a classe média baixa branca. Por causa da sua situação social, muitos Creoles Negros tinham contato com a música clássica Europeia e o estudo de harmonia e da leitura musical. Com a mudança na legislação em 1894 no estado de Louisiana, que designava que qualquer pessoa com descendência negra seria considerada negra e portanto suscetível às leis segregacionistas, os Creoles Negros eventualmente se reaproximaram dos negros marginalizados, paradoxalmente proporcionando ao mesmo tempo tristeza e uma síntese cultural extremamente rica.

 

 

Veja Aqui o Curso de Patrick Murphy sobre a História do Jazz

 

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Bibliografia

 

CLASSIC BLUES. Smithsonian Folkways Recordings. 2003.

 

CLASSIC AFRICAN AMERICAN GOSPEL. Smithsonian Folkways Recordings. 2008.

 

GIOIA, T. The History of Jazz. 1997.

 

SANTELLI, R. A Century of the Blues. 2013.

 

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ONE COMMENT

  • John Paul Harrison Starr disse:

    Excelente matéria. Muito esclarecedora e inspiradora a buscar mais fontes de pesquisa sobre os assuntos tratados. Parabéns ao autor. Fiquei apenas em dúvida quanto à expressão “(…) um espaço de celebração religiosa em igrejas Católicas, mesmo segregadas.” Patrick Murphy, nas fontes citadas fez-se menção ás igrejas católicas mesmo? Pergunto porque aquela região faz parte do Bible Belt, o cinturão evangélico, com forte ascendência das igrejas ditas protestantes. De qualquer forma, valeu pelo ótimo texto.

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